Entrevista com o CM Armen Proudian

Nome: Armen Proudian
Título: Candidato a Mestre
Rating: 2113

Xadrez Total: Conte a sua história no xadrez. Como começou? Quem te ensinou a jogar?
Armen Proudian
: Minha mãe me ensinou as regras do xadrez quando tinha oito anos, mas não fiquei muito entusiasmado porque só perdia. Gostava mais de jogar videogame. Até que com treze anos descobri um site que oferece um ambiente para jogar on-line. Como o nível era bem amador, consegui ganhar algumas partidas. Nessa época meu pai começou a me acompanhar e me ensinou os conceitos básicos. Aos poucos descobrimos que eu “levava jeito” para xadrez.

Xadrez Total: Você joga há pouco tempo, mas a sua evolução está sendo rápida. Qual é o segredo?
Armen Proudian: Eu treino bastante no ICC (Internet Chess Club), gosto de encarar adversários bem mais fortes e gosto de bater meus recordes, isso me motiva. Certa vez um amigo me desafiou para chegar ao recorde dele em partidas de um minuto, comecei a jogar no ICC às 11:00h e insisti em melhorar meu rating até que às 03:00h da madrugada finalmente igualei meu recorde ao dele, que era uns 200 pontos acima do meu. Foi um esforço e tanto.

É claro que o ICC sozinho não resolve. Em 2008, já com quatorze anos, comecei a freqüentar as aulas semanais da minha escola que são ministradas pelo MI Jefferson Pelikian e comecei a participar em torneios escolares e outros torneios de xadrez rápido no SESC Interlagos e no Clube Paulistano. No fim daquele ano finalmente ganhei uma das etapas do “Grand Prix” do Paulistano e me senti pronto para competir nos torneios de categoria em 2009.

Xadrez Total: Estava pronto mesmo?
Armen Proudian: Meu xadrez era bem natural e ingênuo. Seguia os fundamentos: colocava minhas peças em casas boas, protegia o rei, procurava conquistar espaço e controlar o centro do tabuleiro. Insistia em atacar as peças do adversário até conseguir alguma vantagem. Procurava dar golpes de cavalo e tentava estragar a estrutura de peões do adversário. Trocava as damas logo para ter menos preocupação com o contra jogo. Não fazia planos, simplesmente procurava lances bons. Não fazia manobras para melhorar a posição, procurava trocar as peças bem posicionadas do adversário para atrapalhar seus planos. Quando ganhava um peão tentava trocar todas as peças, imaginando que desta forma ganharia no final.

Para competir em torneios oficiais eu precisava conhecer um pouco de teoria, então, no início de 2009 comecei a trabalhar com o forte enxadrista Vinicius Saito. Com ele aprendi a conduzir melhor o meio de jogo e estudei os finais básicos e algumas linhas de abertura. Ao mesmo tempo continuei a treinar no ICC e freqüentar as aulas de xadrez da escola.

Xadrez Total: Quais foram seus resultados em torneios de categoria?
Armen Proudian: Em março de 2009 participei no meu primeiro campeonato oficial: o Paulista sub-16 em Catanduva/SP e fiquei em 12º lugar entre 56 participantes, resultado que não me agradou. Após duas semanas, no Paulista sub-18 em Santos/SP joguei melhor e acabei ficando em 4º lugar entre 41 participantes.

Em junho fui jogar o Brasileiro sub-16 em Fraiburgo/SC. Comecei o torneio sem pretensões, mas fui avançando até que na última rodada me encontrei na primeira mesa contra Mateus Nakajo, que fez um torneio perfeito. Perdi aquela partida, mas fiquei em 3º entre os 85 participantes.

Foi a partir daí que comecei a também ter aulas com o MI Pelikian que construiu meu repertório de aberturas. Em setembro joguei três torneios abertos, enfrentando enxadristas bem mais experientes pela primeira vez em partidas pensadas. Meu FIDE saiu em novembro de 2009 com rating inicial de 1967, na média dos outros enxadristas da minha faixa etária.

Xadrez Total: Você foi campeão Sul-Americano em 2009. Como foi isso?
Armen Proudian: Em dezembro teve o campeonato Sul-Americano em Mendes/RJ. Participei na categoria sub-16 e meu objetivo era de conseguir uma classificação acima do meio da lista, já que havia adversários que tinham rating maior que 2100 e até tinha um peruano que já era MF.

Foi um torneio surpreendente. Comecei ganhando, mas empatei na segunda rodada e perdi na terceira contra o paraguaio Hernan Perez, que era um dos favoritos. Havia jogado três partidas boas, equilibradas e estava me sentindo bem, mas com esse resultado fiquei para trás. Na quarta rodada enfrentei o carioca Daniel Rangel e ganhei um final de torres, aplicando manobras que havia aprendido com Saito. Ganhei novamente na quinta rodada enquanto todas as mesas superiores do torneio empataram.

Na penúltima rodada ganhei do boliviano Rodrigo Mendonza numa boa partida, sacrificando qualidade por ataque. Assim, entrei na última rodada com chances de me classificar desde a primeira até a décima posição, dependendo do conjunto dos resultados. Na partida contra o paraguaio Marcelo Villalba (hoje MI) estreei a linha de Nimzo-Índia que o MI Pelikian tinha me ensinado. No meio da partida ele ofereceu empate, mas como as outras partidas da rodada ainda estavam em andamento e me sentia confortável na posição, resolvi continuar. Jogamos mais alguns lances até que aproveitei de uma imprecisão e arrematei.

Tinha ganhado a minha quarta partida em seguida! Não só isso, a combinação de resultados que precisava aconteceu e de repente eu era o campeão!

Xadrez Total: Você jogou muitos torneios ao longo de 2010. Como você se prepara para cada torneio?
Armen Proudian: Realmente foi uma maratona, mas valeu a experiência. Quero destacar a minha participação nas Olimpíadas Pan-Armênias em Yerevan (Armênia) onde enfrentei vários mestres e me segurei bem. Nessa ocasião dividi o quarto com o GM Krikor Sevag Mekhitarian e vi como ele se prepara para cada adversário usando a base de partidas. Xadrez em nível profissional é outra coisa!

Meu preparo não tem nada especial. Como falei eu jogo no ICC diariamente então nunca fico destreinado. Além disso, antes de cada torneio eu faço uma revisão das partidas-modelo do meu repertório para relembrar as linhas que jogo com freqüência menor, o resto fica por conta da inspiração e do cálculo concreto na hora de jogar.

Xadrez Total: Como foi na Armênia? Gostou do país de seus ancestrais?
Armen Proudian: Gostei muito. O xadrez é um esporte popular na Armênia. Até motorista de táxi consegue discutir a posição Lucena com passageiros. O torneio foi organizado pela Academia de Xadrez da Armênia e juntou 40 enxadristas de origem armênia de todo o mundo, tendo no topo do ranking o campeão olímpico GM Tigran L. Petrosian. Eu joguei na equipe da América do Sul. O emparceiramento seguia o sistema suíço, mas se somavam os resultados dos jogadores de cada equipe. Apesar de ser o 35º na lista eu fiquei em 29º posição no torneio, conseguindo vários empates bem suados e até uma vitória.

O mais engraçado foi quando fomos jogar futebol. Lá eles jogam semanalmente e se dividem em uma equipe de GMs contra os “mortais”. Tem tantos GMs que dá para montar até dois times tranquilamente. Na primeira vez fui prestigiado e joguei no time dos GMs. Quem mandava no time era o bicampeão olímpico GM Gabriel Sargissian, e ele manda mesmo! Resumo da história: perdemos, e na segunda vez joguei no outro time. Fiz dois gols e dei assistência para o terceiro. Sempre soube que um dia ganharia de vários GMs ao mesmo tempo!


GM Krikor e CM Proudian no jogo de futebol na Armênia

Xadrez Total: Como você costuma estudar xadrez? Lê livros ou usa engines?
Armen Proudian: Não tenho paciência para ler livros de xadrez. Prefiro aprender jogando ou com alguém me explicando. Também não uso engines. Acompanho torneios internacionais quando são transmitidos ao vivo no ICC. Às vezes meu pai mostra partidas interessantes de Grandes Mestres e eu tento adivinhar os lances. Costumo fazer análise pós-partida com meus adversários. Acabo aprendendo um pouco de tudo isso.

Xadrez Total: Quer comentar algum episódio interessante que tenha ocorrido nesses torneios?
Armen Proudian: No aberto do Botucatu estava enfrentando o MF Álvaro Aranha que logo após a abertura me ofereceu empate. Não entendi porque e desconfiei que ele tivesse visto um lance ou algum plano favorável a mim. Gastei uns 40 minutos procurando e não achei nada. Mesmo assim resolvi continuar jogando até que chegamos a um final no qual ele tinha uma ligeira vantagem, mas que conseguiria segurar com jogo preciso. Acabei errando por pressão de tempo e perdi a partida. Foi uma lição e tanto.

Eu outra ocasião fui “proibido” de participar em um torneio se não lesse um livro sobre técnicas de ataque, de 350 páginas! Acabei tendo que começar a ler e agüentei umas 35 páginas até que consegui negociar o fim de proibição. Foi um alívio! Joguei um torneio inspirado e ganhei 14 pontos de rating!

Xadrez Total: Você se vê como enxadrista profissional no futuro?
Armen Proudian: Que pergunta difícil! Gostaria muito. Jogar xadrez e viajar é bom demais, mas tenho minhas dúvidas. Vejo que para se ter estabilidade financeira é preciso investir em outra profissão. Provavelmente vou continuar no xadrez e em paralelo fazer uma faculdade mais tradicional.

Xadrez Total: Quais são seus planos para 2011?
Armen Proudian: Estou no terceiro ano na escola e no fim deste ano pretendo prestar vestibular. O xadrez terá que esperar um pouco. Apesar disso, continuarei jogando no ICC e pretendo participar pelo menos no Brasileiro sub-18 e nos jogos regionais.

Também pretendo jogar o mundial sub-18 que será realizado no Brasil, mas temo que aconteça  na época do vestibular.

Xadrez Total: E para finalizar…
Armen Proudian: Agradeço o AI Mauro Amaral pela oportunidade desta entrevista e quero dar os parabéns pelo site Xadrez Total que está tendo um papel positivo no cenário do xadrez brasileiro. Agradeço o Vinicius Saito e o MI Jefferson Pelikian pelo que me ensinaram; os GMs Mekhitarian e Matsuura pelas boas dicas e conselhos; meus amigos e colegas de xadrez por terem me recebido nessa grande família; e finalmente um grande obrigado a meus pais e minha irmã pelo apoio em tudo.

Entrevista concedida ao AI Mauro Amaral e Guilherme Moraes para o portal Xadrez Total.

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Um comentário em “Entrevista com o CM Armen Proudian

  • 3 de março de 2011 a 19:03
    Permalink

    Boa Armên!!!

    Parabéns pelo sucesso! Ótima a sua entrevista!
    Agora eu fico me lembrando de quando eu jogava com você no Dante, dando vantagem de tempo e até mesmo de peça…….velhos tempo….VELHOS TEMPOS MESMO!

    Mas é isso ae, como diz o Jaques Blit “Hasta el Fondo!”
    Ainda mais sucesso na sua carreira enxadrística, você e seus pais são muito legais e sempre bom vê-los nos torneios por ai.

    PS: Mas que fique bem claro que se a gente sentar pra jogar, se prepare…..aqui tem chess!!!!
    Grande Abraço

    Jorge Fakhouri Filho

    Responder
  • 3 de março de 2011 a 20:19
    Permalink

    Execelente entrevista!
    A melhora do Armen em tão pouco tempo de prática em torneios é realmente uma característica marcante. Além de tudo, a sua forma de pensar, ver e analisar as posições é única, com alguns ‘deslizes posicionais’ as vezes,mas de uma forma muito criativa e original,de modo que sempre produz partidas criativas e interessantes. E apesar dele jogar SEMPRE a mesma variante contra minha dragão, eu sempre preciso inventar alguma coisa nova na posição pra não cair a casa ahuauhuhuhuhauhauha… Brincadeiras a parte, com treino constante essa melhora só pode aumentar, porque em apenas dois ou três anos jogando torneios, ser campeão sulamericano é uma prova incontestável do seu potencial.

    Boa sorte,e sucessso mlk ;D

    Abraços

    Renato Quintiliano

    Responder
  • 4 de março de 2011 a 01:24
    Permalink

    Parabéns Armen! x)

    É sempre bom ver os amigos evoluindo e se destacando tão rapidamente. Isso anima e motiva toda a galera da nossa geração.

    Abraços

    Responder
  • 4 de março de 2011 a 23:56
    Permalink

    Armen!

    Impressionante sua evolução, ganhou com méritos o SulAmericano de 2009. Naquele ano até me surpreendi com esse feito mas pouco depois ele mostrava que não foi um achado, sua evolução foi realmente incrível!

    Só o tenho a parabenizar!
    Parabéns Armen!

    Nos vemos por ai,
    Sorte nos próximos torneios!

    Abraço!

    Responder
  • 6 de março de 2011 a 19:03
    Permalink

    Grande Armen! Excelente entrevista,os seus comentários sinceros sobre a forma como você se prepara faz a gente suspeitar que você é um gênio mesmo! hehe. Ah,e parece que o Bruno foi o último a comentar por enquanto né?Só podia ser um comentário de”Morado” !!! kkkkkkkkkkk

    Responder
  • 11 de março de 2011 a 01:33
    Permalink

    Aí sim, sempre mantendo a bandeira do Brasil e da Armênia lá em cima.

    Mas de verdade, parabéns pelos resultados nos últimos 2 anos.
    E como já conversamos milhares de vezes, não existe segredo para o sucesso. É preciso disciplina, dedicação e persistência. E em quantidades alternadas, você tem essas três qualidades. Agora o plano é pensar sempre mais longe e criar desafios constantes.

    Tá faltando só melhorar o 1-minute no ICC!

    Abs,

    KSM

    Responder

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