Entrevista com o MF Luis Rodi

Nome: Luis Rodi
Título: Mestre FIDE, com três normas de MI.
Rating FIDE: 2310

XadrezTotal: Pesquisando em bancos de dados de partidas, vemos que você já enfrentou a muitos grandes mestres. Quais as suas partidas preferidas contra eles?
MF Luis Rodi: Cada partida com um grande mestre tem um significado especial, pois não é todo dia, que se tem oportunidade de jogar contra alguém deste nível. Posso lembrar aquelas, onde me saí vitorioso, mas sem dúvida foram importantes, independentemente dos resultados, as partidas que disputei contra verdadeiras lendas, tais como Miguel Najdorf, Bent Larsen ou Ulf Andersson.

XadrezTotal: Cite as mais importantes partidas jogadas ao longo da sua carreira.
Rodi: Levando em conta a importância esportiva, deveria dizer que a mais importante – por enquanto – foi a última rodada do ITT realizado na ALEX (Rio de Janeiro) contra o mestre internacional da Suécia Dan Cramling, pois esta vitória, me outorgou a terceira [e ultima] norma de mestre internacional.

XadrezTotal: Quais os seus principais títulos?
Rodi: Fiquei bem feliz com a vitória no magistral da ALEX, pois o ano 2010 não tinha sido tão bom esportivamente. Considerando que era o quinto pré-classificado foi um bom resultado e um excelente começo do ano. Já tinha vencido algumas etapas de Abertos do Brasil (entre os últimos lembro um na cidade mineira de Sete Lagoas e outro em Santos, que foi o primeiro torneio aberto que ganhei no Brasil), e geralmente obtive bons resultados nas competições por equipes como os regionais e abertos paulistas (dois ouros nos Jogos Abertos, dois ouros nos Jogos Regionais e duas pratas também nos Regionais).

XadrezTotal: Você quase sempre começava perdendo a primeira partida em um torneio de norma. Como fez para mudar isto?
Rodi: Ainda não sei se mudei… o dos últimos torneios pode ser um acidente. Esperemos os próximos torneios, para saber se realmente modificarei a tendência…

XadrezTotal: Como foi fazer norma de MI em um Magistral que contava com a participação de quatro GMs? [VI Magistral da Hebraica 2009]
Rodi: Foi bem difícil, porque, fiel ao meu “costume” daqueles tempos, comecei perdendo a primeira rodada, e não satisfeito com isso, perdi a segunda também, e isso contra os enxadristas de menor rating. A perspectiva era, pois, pouco otimista, e mais ainda, considerando que me restava jogar contra todos os grandes mestres, e também contra enxadristas que estavam muito perto de serem grandes mestres, como era o caso do [hoje GM] Krikor Mekhitarian. Mas nesta hora aconteceu algo que também me define [alias, no ITT da ALEX mais uma vez ficou demonstrado] ainda que, nas piores dificuldades, eu luto pelo que acredito, e eu acreditava que poderia jogar um melhor xadrez do que vinha fazendo. Assim foi que cheguei à última rodada, contra o grande mestre Fier, precisando um empate para fazer a minha segunda norma, resultado que obtive jogando com as peças negras, após uma partida interessante.


Na Hebraica, onde fez sua segunda norma de MI

XadrezTotal: Sabe-se que você sempre gostou do Brasil, como foi a decisão de mudar-se para o nosso país?
Rodi: Eu sempre gostei de Brasil, fundamentalmente pelo seu povo, seu jeito humano, as virtudes, que como sociedade, eu reconheço neste grande país. Em certos aspectos o Brasil me lembra aquele Uruguai natal que deixe quando criança, para passar a morar na Argentina, o que sem dúvida era outro atrativo. Infelizmente a Argentina, depois de ser também um grande país, nos últimos tempos (eu diria desde a última ditadura, que foi especialmente negativa desde todos os pontos de vista, até no econômico) foi-se degradando, até se converter numa sociedade canibal, que aplica uma forma de capitalismo selvagem, onde as pessoas parecem valer pelo que possuem e não pelo que são, onde os políticos do governo, e também da oposição, são igualmente ruins, e onde as esperanças dos que menos possuem, estão nos níveis mais baixos dos últimos setenta anos. Não estou de acordo com esse tipo de sociedade, onde o ser humano é uma mercadoria, e faz tempo que eu planejava mudar-me para outro tipo de sociedade. Mas para isso também existe um componente econômico: você precisa assegurar seu sustento, ter um méio de vida.

Durante o final do ano 2009 tive importantes conversas com o grande mestre Darcy Lima, a quem conhecia há anos, e que sempre tinha me transmitido nos seus atos, a seriedade e confiabilidade que eu considero imprescindível para qualquer tipo de negocio. Ele me expressou então, alguns dos seus projetos e possibilidades de desenvolver produtos enxadrísticos no Brasil. Gostei da idéia, além disso, me considerava capacitado para desenvolve-las. Foi decisivo na minha escolha de passar a morar no Brasil, o fato de ser o Darcy, o gestor dos empreendimentos que estamos realizando. Quando você dá um passo tão radical [muda de um país a outro, com diferente idioma, outra cultura, começando de zero] é imprescindível contar com a ajuda e boa vontade de pessoas confiáveis, e eu achei isso na figura do grande mestre Lima, a quem considero um dos grandes protagonistas do xadrez latino-americano.

XadrezTotal: Conte-nos como está a sua rotina de trabalho no Rio de Janeiro.
Rodi: Divido o meu trabalho entre o jornal Xadrez Diário, as aulas na academia que leva o mesmo nome, e a participação em diversos torneios. No meu tempo livre, trabalho tentando melhorar meu xadrez.

XadrezTotal: Você se destaca também como bom treinador. Conte-nos sobre este trabalho.
Rodi: Realmente gosto de dar aulas. Acho que tenho uma didática que me permite passar os meus conhecimentos a outras pessoas, e desse jeito ajudá-las a melhorar seu xadrez e seu pensamento. Na academia dirigida pelo Darcy, eu dou aulas individuais, mas também estamos preparando cursos diversos (aberturas, meio jogo, finais) para grupos, que estão disponíveis para os clubes e federações de todo o país. Acreditamos que seja possível realizar um bom trabalho nesta área, a partir dos recursos humanos da academia.

XadrezTotal: Você é editor do Xadrez Diário, coordenado pelo GM Darcy Lima. Sabemos que é um árduo trabalho, pois o jornal está sendo editado há mais de um ano, ininterruptamente, com sucesso. Qual é o segredo?
Rodi: Fazer com responsabilidade e carinho. É outro trabalho que eu gosto muito de fazer, pois me permite também melhorar o meu xadrez no processo. O jornal apresenta todos os dias uma partida comentada, geralmente do dia anterior, junto com informações dos principais torneios  no Brasil e do mundo, e um exercício para resolver. Chega aos assinantes diariamente em diversos formatos [PDF, CBV e PGN] e oferece uma rápida visão do que se está sendo jogado no mundo, com ênfase nos aspectos estratégicos do jogo, para o qual damos prioridade nas explicações verbais, ao invés de meras variantes enciclopédicas.

XadrezTotal: Existe um movimento no xadrez do Rio de Janeiro, que tem feito muitos torneios, inclusive este ITT onde você fez sua última norma de MI. Conte-nos sobre a Convergência do Xadrez Fluminense.
Rodi: O xadrez carioca, apesar do seu brilhante histórico, nos últimos anos tem sofrido uma queda esportiva persistente, um profundo sono, do qual a Convergência parece tê-lo acordado. Pelo menos, os enxadristas começaram a ver sinais de vida no Rio, desde a aparição deste movimento: a quantidade de torneios e atividades se multiplicou no Estado, o que é uma boa novidade para qualquer pessoa que ame o xadrez. Já são dezenove entodades, dentre as principais do Estado, entre elas, os tradicionais, Clube de Xadrez Guanabara e a Associação Leopoldinense de Xadrez, a Alex.

 

Recebendo o troféu, das mãos do AF Carlos Carvalho Analisando a partida que lhe valeu a terceira norma, com o MI Dan Cramling

XadrezTotal: Você tem um histórico, de, na Argentina, lutar e protestar contra torneios suspeitos, organizadores que fazem torneios pedindo para que os jogadores “entreguem” partidas para o “jogador local”. Este problema persiste?
Rodi: Na cidade onde eu morava, Pinamar, na Argentina, existe um “personagem” que organiza e “joga” torneios, onde entrega uma quantia em dinheiro a mestres de duvidosa reputação, em troca de entregarem as partidas, e assim, o beneficiado fazer normas de mestre internacional e subir seu rating, a absurdos mais de 2400, que é um nível que ele não possui, nem de longe.

Agora este sujeito quer comprar o título de grande mestre, e para isto, está organizando torneios nesta cidade, com o objetivo de subir o rating até ultrapassar os 2500. Claro que no ambiente enxadrístico, todos o conhecem, e nenhum organizador sério o convida para jogar nada, mas sempre há desprevenidos que acreditam em sua história. Este é um caso único, do qual foram testemunhas, os enxadristas desta região, e em diversas oportunidades, solicitamos à federação argentina, que tome medidas. Infelizmente este tipo de picareta existe, e prejudica o xadrez, afastando os possíveis patrocinadores, e dando uma imagem negativa do jogo, que infelizmente, ataca aos profissionais sérios, além de ser uma péssima influência para os jovens.

Lamentavelmente, na Argentina, não se tomaram as medidas corretas contra este tipo de conduta, fato que fez surgirem seguidores, para este tipo de delito. Logo, o problema persiste, e está cada vez, mais grave. O problema, entendo, é universal [lembrem o caso do paraíso do rating em Mianmar, ou o denominado caso Crisan] e nos últimos tempos ainda existe mais uma alternativa para esse tipo de pilantras, que é fazer uso da tecnologia para utilizar os serviços de algum programa de xadrez forte nos seus jogos, em muitos casos com a cumplicidade de algum outro indesejável. Acredito firmemente que pessoas que compram partidas ou empregam métodos ilegais para disputar suas partidas, devem ser banidas exemplarmente do mundo do xadrez.

XadrezTotal: Na Argentina, você tem um jornal, mas tem se dedicado bastante ao xadrez, prefere trabalhar só com xadrez, ou conciliar as diferentes atividades?
Rodi: Enquanto morei na Argentina o jornalismo foi minha principal atividade, sendo o xadrez, nestes tempos, uma ocupação bastante secundária. Hoje, ainda conservo o meu jornal [Utopias de Pinamar] um jornal diário de informação geral, transformado em semanário quando comecei a viajar ao Brasil, e daqui do Rio de Janeiro, eu colaboro com ele, que agora é administrado pela minha mãe, escrevendo o editorial, geralmente sobre política, tomando as decisões mais importantes, e diagramando uma vez por semana.

Só que agora, o xadrez passou a ser o meu trabalho prioritário. De qualquer jeito, o jornalismo é uma atividade importante na minha vida, e de certa forma, continuo atuando, através, não só, do meu próprio jornal, mas também, nos artigos enxadrísticos que elaboro.

XadrezTotal: Quem são seus jogadores preferidos, e com qual grande jogador, seu repertório se parece?
Rodi: Cresci na época em que os dois “K” (Karpov e Kasparov) ganhavam tudo, o que, de certa forma, condiciona. Tenho também uma especial simpatia pelos grandes mestres Ljubomir Ljubojevic (por ser, em sua época, o maior representante da terra dos meus avôs), Ulf Andersson (pela sua técnica, e sua amabilidade), o recentemente desaparecido Bent Larsen (por lutar sempre até o último peão) e Jan Timman (pelo seu estilo). O meu estilo é universal, e pode ser comprado, guardando as devidas proporções, ao de Boris Spassky.

XadrezTotal: A FADA [Federação Argentina] está suspensa pela FIDE, por falta de pagamento. Isto pode prejudicar seu pedido de título de MI? Você já fez parte da diretoria desta entidade, como analisa a atual gestão?
Rodi: Espero que as circunstâncias políticas não interfiram na parte esportiva. Acho que o xadrez argentino, é reflexo do que acontece na sociedade em geral: As dificuldades são maiores em tempos de crises econômicas, assim como as brigas políticas. Meu desejo é que o xadrez deste país volte a ser o que era, assim como o próprio país, que tem um grande potencial.


Com a camisa de seu clube de coração, Independiente de Avellaneda

XadrezTotal: Você nasceu no Uruguai. Tem vontade de mudar sua bandeira na FIDE, para representar o seu país de origem?
Rodi: Jogar pelo meu país natal, é um velho sonho. Quando morava na Argentina, parecia lógico representar este país, porém, nesta nova fase da minha vida, considero que meu dever moral é representar a minha terra. Estou iniciando junto à FIDE, os tramites correspondentes, assim, espero logo estar jogando com a bandeira uruguaia.

Entrevista concedida ao AI Mauro Amaral e Guilherme Moraes.

 

Um comentário em “Entrevista com o MF Luis Rodi

  • 28 de janeiro de 2011 a 10:58
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    Excelente entrevista. Parabéns ao Rodi, pessoa fantástica a quem tive a honra de conhecer pessoalmente e de receber em torneios que organizei aqui no ES. Pena que no primeiro Magistral que ele participou aqui a norma ficou por meio ponto, teria sido fantástico participar da formação do título merecido de Mestre Internacional que conquistou.

    Responder
  • 31 de janeiro de 2011 a 20:47
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    Entrevista interessante. Eu particularmente só conhecia o Rodi analista de finais e recentemente ele participou de um torneio aqui em Salvador sagrando-se vice-campeão do torneio à frente de alguns GM’s e MI’s.

    Parabéns Rodi por sua conquista suada e devo dizer que você é um exemplo para os mais jovens pelo seu caráter como enxadrista e como pessoa.

    Que venham outros títulos!

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  • 1 de fevereiro de 2011 a 02:38
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    Essa é uma notícia muito feliz para nós. Conheci o Rodi quando veio, gentilmente, jogar a nossa Modesta Copa dos Inconfidentes, em Ouro Preto. E foi uma grata surpresa. Conhecemos uma pessoa muito nobre e digna, um profissional da mais alta qualidade, um homem culto e com ideias avançadas, enfim, um Mestre que granjeou a nossa estima e admiração.

    Parabéns, Mestre Rodi ! Continue lutando pelo que você acredita.

    Abraço

    Rômulo Noronha

    Responder
  • 1 de fevereiro de 2011 a 11:09
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    Parabéns ao Xadrez Total pela entrevista que revela a personalidade do enxadrista Luis Rodi. Depois de ter conhecido o Xadrez de Rodi no tabuleiro de duas partidas bastante tensas (ao menos para mim), é muito interessante conhecer também as opiniões e filosofia de vida da figura humana, com as quais possuo muitos pontos de concordância.

    Parabéns, Rodi, pela conquista da Norma Definitiva de Mestre Internacional e

    Aquele abraço a todos!

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  • 2 de fevereiro de 2011 a 11:32
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    Meus parabéns ao MI Rodi.

    Apesar de ter me vencido em um torneio da ALEX, onde decidiámos a 1º colocação, rsrsrsrsrsr
    Ele mereçe e muito esta norma definitiva de MI, acompanho suas partidas e suas análises há alguns anos e agora lógico mais de perto.

    Valeu Mestre.
    Nei

    Responder
  • 2 de fevereiro de 2011 a 16:55
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    Excelente entrevista que permite ao público brasileiro conhecer um pouco mais de um dos protagonistas do xadrez brasileiro atual. Conheci pessoalmente e admiro o Rodi por ser um amante da verdade, até mais extremado do que eu. Que continue assim, tem todo meu apoio. Felicidades!

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  • 6 de fevereiro de 2011 a 23:35
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    Parabèns!! Muchos éxitos en esta nueva etapa!

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