O mágico torneio de Wijk aan Zee

MF Luis Rodi

Enquanto escrevo estas linhas, se inicia o famoso festival de Wijk aan Zee, que está em sua 73ª edição. Os holandeses foram se superando ano após ano, e hoje em dia podemos dizer, praticamente, que o torneio A é o verdadeiro grande magistral do ano… Mesmo começando tão cedo.

Podem existir, claro, torneios de rating médio mais elevado, mas nestes casos, os organizadores diminuem o número de participantes para alcançar uma categoria superior, mas o resultado, não é o mesmo. Por exemplo, eu acho que o torneio de Linares, na Espanha perdeu muito do seu tradicional atrativo quando começou a inovar no número de participantes. O recente torneio de Londres é outro caso, agravado pelo uso de um sistema de pontuação (3 pontos por vitória) que não acredito seja o melhor para o xadrez.

No torneio holandês, veremos catorze gladiadores tentando jogar um bom xadrez, com todas as condições dos antigos e bons torneios. Sou dos que pensam que nem tudo tem que ser modificado, em nome da modernidade, e a prova disto, é o enorme interesse com que as partias, nas praias holandesas, são seguidos pela mídia e pelos amadores do mundo intero.

Obviamente, a principal atração dum torneio desta natureza são os reconhecidos enxadristas que nele participam. Aqui há quatro que sem dúvida começam o torneio como favoritos: o número um, Magnus Carlsen, o campeão mundial Vishwanathan Anand, o crescente Levon Aronian e Vladimir Kramnik.

Carlsen chega ao torneio, com a obrigação moral de defender a sua decisão de não participar do ciclo de candidatos ao título mundial, demonstrando que independentemente do título da FIDE, pode manter o posto de melhor enxadrista do mundo. Alguns sintomas mostram que a sua tarefa não vai ser simples; suas últimas atuações deixaram algumas dúvidas e até Kasparov está começando a expressa-las. O ex-campeão mundial comentou que o norueguês não estava pronto para um desafio sério como este, e que ainda necessita trabalhar duro para progredir. Para Kasparov, a derrota de Carlsen contra Anand em Londres foi terrível. O russo indicou, além disso, que não se imagina treinando ao jovem prodígio novamente. Mas além de toda dúvida, a força de Carlsen é evidente e, sobretudo, independentemente do resultado neste torneio, um brilhante futuro o espera.

No ano passado, quando Anand disputou competências fortes como a de Wijk aan Zee, ele escondeu a preparação no decisivo match pelo título mundial contra o seu desafiante Veselin Topalov. Tenho certeza que determinadas escolhas de abertura foram precisamente resultado desta circunstancia, assim como a condução de certos segmentos no meio-jogo. Sem desafios semelhantes a vista (ao menos, não até acabar o ciclo de candidatos) podemos ter a oportunidade de ver o melhor Anand nesta edição. O mestre indiano mostra um repertório de aberturas cada vez maior, e as principais características do seu jogo –solidez, grande técnica, bom manejo da iniciativa- se mantém intocadas, ao longo dos anos.

A carreira de Levon Aronian lembra a de seu compatriota Petrosian: sem barulho, sem a explosiva manifestação enxadrística de, digamos, um Tal; porém com um xadrez cada vez mais expressivo, ele vai ascendendo no cenário enxadrístico, como prova sua recente escalada no rating FIDE (superou os 2800 pontos). Wijk aan Zee pode ser a ocasião de mostrar que não é por acaso que ele é o atual número três do mundo.

O quarto candidato é o ex-campeão mundial Vladimir Kramnik, de quem dizem que não está atravessando a melhor fase da sua carreira (em Londres ele deixou escapar uma vitória sobre Carlsen, com um empate depois de perder varias oportunidades de vitória, algo que o velho Kramnik não deixaria aconteceria), porém que no torneio holandês sempre joga motivado e bem, pelo qual não se deve descartar entre os favoritos. Possivelmente vejamos um Kramnik muito diferente do de Londres… (de fato, outro grande enxadrista que se motiva especialmente em Wijk aan Zee é Shirov).

Entre as possíveis surpresas da prova, eu apontaria o novo campeão russo, Ian Nepomniachtchi,  e também o americano Hikaru Nakamura, que podem chegar à elite do  cenário enxadrístico mundial.

Apresento nesta oportunidade uma partida disputada  recentemente, como aperitivo para o que vai vir daqui pra frente.

Nepomniachtchi,I (2720) – Svidler,P (2722)

63rd ch-RUS Moscow RUS (9), 20.12.2010

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.d4

A Escocesa deve o seu nome ao emprego dela por parte de enxadristas de Edimburgo em um match postal com Londres (1824). Foi desde então uma decente arma secundária logo da Espanhola, porém nos anos noventa ganhou grande popularidade ao ser empregada por Garri Kasparov nos encontros pelo título mundial 3…exd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cxc6 bxc6 6.e5

A linha principal da variante Mieses é uma das mais complexas dentro do universo escocês. As brancas dispõem aqui de mais espaço, e também de uma melhor formação de peões (a das pretas é dividida em três blocos, um deles com peões dobrados), porém as pretas têm também os seus triunfos, geralmente com base no melhor desenvolvimento e a atividade que podam gerar as suas peças

6…De7 7.De2 Cd5 8.c4 Ba6

A mais ambiciosa e agressiva das ideias das pretas nesta posição. [A opção, também importante, é 8…Cb6]

9.Cd2!?

9.b3 é considerada a linha principal aqui, porém o lance da partida, é popular também

9…g6

As pretas dispõem também da ideia 9…Cb4 10.Cf3 c5 que é temática, levando logo o cavalo para a casa c6 (a colocação desta peça é um dos problemas estratégicos que enfrentam as pretas nesta variante)

10.Cf3

Na prática também foi usada a linha 10.b3 Bg7 11.Bb2 onde mais uma vez as pretas podem jogar a manobra temática 11…Cb4 12.Cf3 c5

10…Db4+

Outra forma de utilizar a casa b4, que agora é vedada ao o cavalo, devido ao fato de que já não se ganha tempo ameaçando com o duplo em c2, o que permite a incômoda a3 [10…Bg7 é a opção, onde 11.Bg5 f6 12.exf6 Dxe2+ 13.Bxe2 Cxf6 14.0–0–0 0–0–0 é uma posição importante da linha. Um exemplo é 15.The1 Tde8 16.Be3 d6 17.Cd4 c5 18.Cc6 Bb7 19.Bf3 Rd7 20.Cxa7 Bxf3 21.gxf3+∞ Sveshnikov – Hungaski, Moscou 2006

11.Rd1 Cb6 12.b3 Bg7 13.Dd2 De7 14.Bb2

E esta é a novidade da partida, um lance natural que se afasta dos antecedentes 14.Rc2 (empregado em uma partida entre computadores) e 14.Da5!? Bb7 15.Ba3 d6 16.Rc2 0–0 que é OK para as pretas, por exemplo 17.c5 Bxe5 18.Cxe5 Dxe5 19.De1 Cd5 20.cxd6 Df6-+ Baklan – Gyimesi, Austria 2005

14…0–0 15.Rc2 c5∞

Em uma rápida análise, as pretas enfrentam problemas aqui, relacionados com a falta de jogo de suas peças menores na ala da dama, a inferior estrutura de peões e ainda o espaço menor, elementos que não parecem achar equiparação evidente. Porém, em compensação, elas podem abrir o centro de forma favorável mediante o avanço do seu peão d, o que incomodaria ao rei branco sem suficiente cobertura, ao mesmo tempo que a pressão sobre o e5 afastado da base também é levado em consideração, permitindo uma adequada compensação dinâmica

16.h4!?

Este avanço incorpora mais um elemento à avaliação. Ao procurar a iniciativa na ala do rei, desafiando a segurança do monarca das pretas, as brancas esperam tirar tempo ao seu adversário para que este não possa fazer valer seus elementos favoráveis

16…d5?!

Svidler se mete em problemas com este lance – está dentro da estratégia preta, porém nesta posição concreta é duvidoso que funcione-. Antes de romper no centro, as pretas têm que melhorar suas peças, e para isto a mais adequada parece 16…Bb7! onde uma possível continuação 17.h5 a5!? 18.a4 d5 19.exd6 Dxd6 20.Bxg7 Dxd2+ 21.Cxd2 Rxg7 com equilíbrio aproximado. Note que a diferença com a posição acontecida no jogo, aqui as brancas não dispõem do lance Ce4

17.exd6 Dxd6 18.Bxg7 Dxd2+

18…Rxg7 19.Dc3+ Df6 20.Dxf6+ Rxf6 21.Cg5 Rg7 22.Ce4 transpõe ao jogo

19.Cxd2 Rxg7 20.Ce4+=

Em comparação com a linha apontada no comentário do lance 16 das pretas, aqui as brancas têm iniciativa dirigida contra os peões fracos das pretas, o que a deixa sem dúvidas com vantagem ao primeiro

20…Cd7 21.Td1 Bb7 22.Cc3 Cf6

22…Tad8 23.f3+=; 22…Ce5 23.Ca4 Cg4 24.Td2 Tfd8 25.Te2 Te8 26.Cxc5 Bxg2 27.Txe8 Bxh1 28.Te7+=

23.f3 Tfe8 24.Bd3 a5 25.The1

Finalmente, as brancas acabaram o seu desenvolvimento. Na seguinte fase, elas deveriam planejar um futuro assedio aos peões fracos das pretas na ala da dama. Vale mencionar que este tipo de posições, é muito difícil de defender na prática

25…Bc6 26.Cb5!

O peão de c7 não tem  defesa fácil, e a troca de bispo por cavalo em b5 oferece às brancas um caminho certo para o seu rei pelas casas c3-c4. A única chance defensiva é levar o cavalo preto a e8, para o qual é preciso trocar torres

26…Txe1 27.Txe1 Te8

Sim, também esta. No caso de tentar preservar uma das peças pesadas, por caso mediante 27…Ce8 as brancas exploram a maior atividade de sua torre, e obtém clara vantagem após 28.Te5

28.Txe8 Cxe8

O final é incômodo para as pretas. As brancas elaboram um plano simples, porém de grande efetividade: leva o seu rei até o peão a5, para logo captura-lo e criar assim um peão livre na coluna a.

29.Rb2 Rh6 30.Be2

Uma precaução necessária, cuidar f3 para poder avançar, no caso que seja preciso, o peão g-

30…Cg7!?

É interessante 30…f5 com a ideia …f4, Rh5. Depois de 31.g3 g5 32.hxg5+ Rxg5 33.f4+ Rg6 34.Cc3 as brancas precisam trocar de plano; se (34.Ra3 Cf6 35.Ra4 Ch5 é inclusive melhor para às pretas) 34…Cf6 35.Cd1 Bg2 (35…Ch5 36.Bxh5+ Rxh5 37.Cf2±; 35…Ce4 36.Bf3!+=) 36.Cf2 Ce4 37.Cxe4 Bxe4 (37…fxe4 38.Rc2±) 38.Rc3+= As brancas têm um plano: Bd1, a3, b4, para ganhar passagem pelas casas b4 ou d4 para o seu rei. Ainda assim, a posição preta é defensável e os progressos do primeiro jogador requerem boa técnica

31.Ra3!±

A escolha correta, se dirigindo contra o peão a, que é a última barreira contra a criação do peão passado que querem as brancas. A alternativa 31.Cxc7 não cumpre essa função, por exemplo 31…Cf5 32.Ca6 Cxh4 33.Bf1 Cf5 34.Cxc5 Ce3 35.Bd3 Cxg2

31…Cf5

Ou 31…Ce6 onde 32.g3 (32.Bd1? f5∞) 32…f5 33.f4 Cd4 34.Cxd4 cxd4 35.b4 é claramente melhor para as brancas

32.Ra4 Cxh4

32…Cd4 33.Bd1±

33.Bf1

Outra possibilidade é 33.Rxa5 Cxg2 34.Cxc7 Cf4 35.Rb6±

33…Cf5 34.Rxa5+-

As brancas criaram o seu peão passado, o que deixa o jogo estrategicamente definido. O resto é questão de técnica, e Nepomniachtchi resolve do jeito mais elegante

34…Ce3 35.Cxc7! Cxf1 36.Rb6 Bd7 37.Cd5

Contra a ideia defensiva …Bc8. A tomada em c5 é outra possibilidade aqui, também ganhadora

37…Rg7 Ou 37…Cd2 38.Rxc5 Rg5 39.b4+-

38.a4 Bc8 perde de imediato, porém 38…Rf8 39.a5 Bc8 somente ganha alguns lances mais de vida; após 40.Rxc5 Cd2 41.b4 as pretas não tem como resistir ao avanço dos peões brancos na ala da dama, por exemplo 41…Cb3+ 42.Rb6 Cd2 43.c5 Cc4+ 44.Rc7 Ba6 45.c6+- 39.Ce7 O bispo é obrigado a deixar a diagonal curta permitindo o avanço decisivo do peão a 1–0

Artigo escrito pelo MF Luis Rodi

 

 

Um comentário em “O mágico torneio de Wijk aan Zee

  • 19 de janeiro de 2011 a 14:23
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    Boa tarde, Mestre Rodi! Tive a excelente oportunidade de conviver com teu talento enxadrístico e faço votos de muito sucesso! Estou aqui para sugerir que acrescente aos artigos o PGN ou CBV contendo o mesmo texto e análises, talvez fique mais fácil dos leitores acompanhar. Caso a idéia não seja adequada, justamente por entenderes que o enxadrista deve ler manualmente as posições, entenderei também. De qualquer forma, obrigado ao site, AI Mauro Amaral e MF Rodi por participarem deste novo portal do Xadrez brasileiro! Abraços vindos do RS!

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